Vasculhando meus arquivos encontrei a coluna de Washington Novaes do dia 15/05/08 em O Popular. Nela ele cita minha pesquisa de mestrado. A temática "agricultura e meio ambiente" sempre está presente nas discussões acadêmicas, a exemplo da recente pesquisa publica por holandeses na PNAS alertando que mais de 90% da água do planeta é utilizada na agricultura. O jornal O Globo publicou matéria referente à pesquisa, a qual econtrei no blog http://blogdofavre.ig.com.br/ sob o título "Sede implacável".
Abaixo a referida coluna de Novaes.
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Lógicas que comandam o Cerrado
Washington Novaes
Ainda há poucas semanas, este jornal noticiou (12/4) a maior operação de fechamento de carvoarias já realizada no Estado, no Cerrado da região do Vão do Paranã: nada menos de 268 fornos ilegais foram interditados quando produziam carvão, provavelmente para gusarias e siderurgias de Minas Gerais, utilizando trabalhadores em “condições subumanas”. Mais um desses episódios que levam o nosso segundo maior bioma, detentor de um terço da biodiversidade nacional, nascedouro de 14% das águas brasileiras, a perder a cada ano mais de 1% de sua vegetação (22 mil quilômetros quadrados anuais), segundo o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN).
Um documento que poderá ajudar as discussões sobre o Cerrado é uma dissertação para o Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais na Universidade de São Paulo, apresentada por Clarissa de Araújo Barreto e que tem como tema Agricultura e Meio Ambiente: Percepção e Prática de Sojicultores em Rio Verde-GO. O trabalho mostra muitas coisas, como os vários impactos provocados pelo tipo de modernização que aconteceu, via mecanização e aporte de insumos químicos: desmatamento, poluição de cursos d’água, erosão, compactação, intoxicações por agrotóxicos e concentração da propriedade fundiária. Mostra ainda que a percepção ambiental dos produtores de soja apurada nas pesquisas (50 produtores, cerca de 10% do total) “não necessariamente influencia na adoção de práticas agrícolas sustentáveis”; eles continuam regidos fundamentalmente pelas lógicas financeiras.
Embora a atual discussão sobre a “crise de alimentos” no mundo esteja desviada do rumo porque não toma em consideração muitos fatores, não deixa de ser interessante observar no trabalho a profunda transformação ocorrida na agricultura goiana em quase meio século. Em 1960 – diz a dissertação – “a produção de arroz correspondeu a 50,4% do valor total de produção agrícola do Estado; a de feijão, a 12,1%; a de milho a 13%; e a de cana a 4,3%”. A soja ainda nem aparecia. Trinta anos depois a produção de arroz já correspondia a apenas 3,7% do valor da produção agrícola estadual, a do feijão a 6,1%, a do milho a 25,5%; já a cana subia para 12,3% e a de soja para 16%.
Hoje, em área plantada, os grãos estão com 3,6 milhões de hectares (4º lugar no País) e a cana com 401 mil hectares (e continua avançando rapidamente). Goiás é o maior produtor de sorgo no País, 3º no algodão, 4º na soja (9% do total), 5º no feijão e na cana, 6º no milho (O POPULAR, 18/10/07). As lavouras expandiram em 65% a área plantada em uma década, para 3,59 milhões de hectares, as pastagens reduziram-se em 20%, para 15,5 milhões de hectares (22/12/07). A agropecuária representa 13,36%do PIB goiano (27/11).
Em Rio Verde, a predominância na sojicultura é das grandes áreas: 74% das propriedades pesquisadas são enquadradas nessa categoria, pelos critérios do Incra. Até 100 hectares, há apenas uma propriedade; a maior tem 13,45 mil hectares. A média de empregados é de 6,76 por propriedade, 80% dos quais temporários. O que se explica pelo alto índice de mecanização: todas as propriedades têm trator, 86% têm colheitadeira, mas só 2% têm pivô central. 80% dos plantadores são favoráveis às sementes transgênicas, alegando motivos econômicos.
Ângulo curioso é o da reserva legal, que parece contrariar o panorama geral do Cerrado: 98% dos plantadores dizem manter a reserva – 71,% dentro da propriedade, 20,4% dentro e fora e 8,2% fora. Mas 62% dos proprietários dizem nunca haver sido vistoriados – até porque o escritório regional do Ibama só dispõe de 5 fiscais para 30 municípíos. Quando se olham os números sobre a vegetação na área, sobrevêm dúvidas.
As matas de galerias diminuíram 49,5% entre 1975 e 2005; as matas ciliares, 74,93%; o Cerrado aberto, 98,35%. No mesmo período, as pastagens aumentaram 332% e a agricultura 1059%.
Há outros ângulos interessantes na dissertação mencionada. Como o da internalização das técnicas mecânicas, de “correção” do solo e aração, trazidas dos países temperados. Foi preciso muito tempo para que se começasse a adotar o plantio direto. As transformações seguiram também o modelo de aumentar a produção voltada para setores de transformação industrial já implantados e de beneficiar fortemente os setores que produzem (ou importam) insumos químicos e equipamentos de mecanização. Trata-se, porém, de um modelo que favorece a concentração fundiária e desestimula a permanência do pequeno produtor na terra – gerando forte migração para as áreas urbanas e a progressiva ingovernabilidade dos maiores centros urbanos, um dos problemas centrais do País, hoje.
Não se trata de negar avanços produtivos e sua influência na economia do Estado. Mas é importante olhar também os problemas, se se pretende avançar em direção à sustentabilidade e à garantia de futuro.
Washington Novaes é jornalista.